casa Da
REPRESA
Local: Piracaia/SP
Ano: 2026
Área construída | 1175 m²
Arquitetura | 24 7 Arquitetura
Interiores | 24 7 Arquitetura
Administração de Obra | Coletivo Obras
Gestão e Compatibilização | Arpo Gestão
Paisagismo | Rodrigo Oliveira
Luminotécnica | Vertz Iluminação
Automação | Cine Claro
Fotografia | Adriano Pacelli
MATÉRIA E PAISAGEM
Em um terreno de aproximadamente 24 mil metros quadrados, marcado por mais de 60 metros de desnível até a represa, o projeto parte da tentativa de estabelecer uma relação de continuidade com sua topografia e entorno.
A casa se organiza em três níveis escalonados, acompanhando o relevo natural e reduzindo movimentações de terra. A fragmentação do programa evita que a construção se apresente como um volume único sobre a paisagem. Em vez disso, diferentes corpos se acomodam progressivamente ao terreno, permitindo que vegetação, cobertura e arquitetura operem em um mesmo plano visual.
O acesso acontece por um percurso longitudinal que protela a apreensão integral da casa. A aproximação se constrói por camadas entre fragmentos da cobertura, vazios entre volumes, proximidade da mata e, ao fundo, a presença constante da represa.
No centro do conjunto, um volume com cobertura inclinada concentra os espaços sociais. A referência às barn houses aparece como investigação de uma espacialidade elementar de um grande abrigo contínuo, definido pela relação entre cobertura, estrutura e vazio interno.
Perpendicularmente a esse corpo principal, volumes horizontais acomodam o setor íntimo e áreas de apoio. Enquanto o volume central estabelece um gesto mais vertical e expansivo, os corpos laterais operam por contenção. A alternância entre esses sistemas organiza a leitura da casa e reduz sua escala percebida.
As suítes se distribuem segundo relações específicas com a paisagem. Algumas se voltam para a lâmina d’água; outras se aproximam da mata mais densa. Não há simetria ou hierarquia evidente entre elas, mas uma tentativa de produzir situações distintas de permanência e observação.
As coberturas verdes dos volumes laterais reforçam esse processo de assimilação da arquitetura ao terreno. Vistas desde a cota de chegada, transformam a cobertura em continuidade do jardim e reduzem a presença construída sobre a encosta.
A residência foi integralmente executada em CLT (Cross Laminated Timber), sistema estrutural ainda pouco empregado em obras residenciais brasileiras dessa escala. A escolha pela madeira engenheirada associa precisão construtiva, racionalização da obra e redução de impacto ambiental, diminuindo resíduos, tempo de execução e pegada de carbono.
Os painéis autoportantes substituem a lógica convencional de pilares e vigas, permitindo que estrutura, vedação e acabamento operem simultaneamente. A construção deixa de depender da sobreposição de camadas e passa a se organizar por continuidade material.
O sistema construtivo passa a determinar a própria linguagem do projeto. A madeira permanece aparente em paredes, forros e cobertura, evidenciando a lógica construtiva da casa e estabelecendo unidade material entre os ambientes.
No espaço social principal, a cobertura inclinada amplia a percepção de escala interna. A estrutura acompanha o desenho do telhado e torna legível o esforço construtivo do conjunto. Grandes planos envidraçados dissolvem os limites entre interior e exterior, incorporando a paisagem da represa à espacialidade da casa.
Os interiores foram construídos a partir da convivência entre peças herdadas da antiga sede da fazenda da família e mobiliário contemporâneo brasileiro. Objetos preexistentes, carregados de memória e uso, passam a coexistir com peças de Sergio Rodrigues, Jader Almeida, Fernando Mendes, obras de arte de Domingos Tótora e Luppa Marini, entre outros, evitando tanto a lógica cenográfica quanto a ideia de coleção.
A madeira carbonizada utilizada externamente unifica os diferentes volumes e estabelece contraste direto com a vegetação e a luminosidade da água. O revestimento reduz a leitura fragmentada da composição e reforça o caráter mais silencioso de uma arquitetura que não se impõe sobre o terreno, mas organiza relações entre matéria, vista e permanência.